A Administração da Biblioteca de Bagdá

House_of_Wisdom(Bayt_al-Hikma)

 

 Dr. Ragheb Elsergany

Tradução: Sh. Ahmad Mazloum

 

Um grande número de gestores acadêmicos organizaram a administração da Biblioteca de Bagdá. Este gestor era denominado “sahib”, portanto chamavam o administrador da “Casa da Sabedoria” de “Sahib Bait Al-Hikmah” (ou seja, o chefe da Casa da Sabedoria). O primeiro deles foi Sahl Ibn Harun Al-Farisi (falecido em 215 dH / 830 dC), a quem Harun Al-Rashid confiou a tarefa de armazenar os livros de sabedoria. Ele traduzia do persa para o árabe o que ele encontrava da sabedoria persa e, quando Al-Mamun assumiu o califado, o nomeou chefe da “Casa da Sabedoria”[1]. Sa`id Ibn Harun, apelidado de Ibn Harim[2], também o ajudava na gestão da biblioteca. A gestão da Casa da Sabedoria também foi assumida por Al-Hasan Ibn Mirar Al-Dabby[3].

Na descrição da Biblioteca de Bagdá, Al-Qalqashandy diz: “As maiores bibliotecas no Islam são três: Uma delas é a biblioteca dos califas abássidas em Bagdá, que incluiu livros incontáveis e de valor inestimável”[4].  A segunda biblioteca foi a situada no Cairo e a terceira em Córdoba.

No entanto, havia um muitas bibliotecas no mundo muçulmano que não eram menos importantes do que a Biblioteca de Bagdá. Isso porque os califas muçulmanos e príncipes estavam competindo em recolher livros. O califa Al-Hakam Ibn Abdul-Rahman Al-Nasser, da Andaluzia, enviava homens para o as regiões do oriente para comprar novos livros assim que eram lançados[5].

Junto com muitas outras bibliotecas islâmicas, a Biblioteca de Bagdá desempenhou um papel importante no revolução científica em vários campos nas mãos dos primeiros muçulmanos e dos filhos de outras nações que aprendiam com os muçulmanos, uma revolução sem precedentes na história antes da idade moderna, que teve um impacto profundo na civilização humana, num momento em que a Europa estava em um estado miserável de nomadismo e subdesenvolvimento[6].

Não podemos deixar de mencionar aqui que esta biblioteca graduou muitos cientistas que foram gênios em muitos campos da ciência, como a Al-Khawarizmi, o inovador da álgebra. Ibn Al-Nadim declarou sobre seu amplo papel na astronomia: “Ele dedicou-se à Biblioteca de Sabedoria de Al-Mamun. Ele era especialista em astronomia, as pessoas confiavam em seus cálculos antes da observação astronômica e depois dela”.[7]

Entre os graduados da Casa da Sabedoria também: Al-Razy, Ibn Sina (Avicena), Al-Biruni, Al-Battani[8], Ibn Nafis, Al-Idrisi[9], e outras centenas de cientistas, que foram fruto do pensamento islâmico, cujos fundamentos foram estabelecidos pela Biblioteca de Bagdá e por outras bibliotecas islâmicas.

Infelizmente, este marco da civilização e este farol cultural foi exterminado pelos bárbaros ataques dos tártaros. Envolvidos em completa estupidez e insensatez, os tártaros – simplesmente –  jogaram milhões de livros preciosos no rio Tigre!

Tinha-se pensado que os tártaros provavelmente carregariam os livros valiosos para Karakorum, a capital da Mongólia, para tirar proveito de tal conhecimento inestimável, especialmente porque eles ainda estavam na infância da civilização. Mas os tártaros eram uma nação bárbara, que não lia e não queria aprender… viviam apenas para os prazeres e desejos. Os tártaros jogaram os esforços dos últimos séculos no rio Tigre, a ponto de a cor da água do Tigre ficar preta por causa da tinta dos livros e a ponto de o cavaleiro tártaro poder atravessar o rio de uma margem para outra em cima dos enormes volumes dos livros! Sem dúvida, foi um crime contra toda a humanidade[10].

E por incrível que pareça, os poucos escritos científicos que sobreviveram à destruição causada por estes e outros invasores foram uma das principais causas do renascimento científico moderno na Europa. Este foi o testemunho de muitos estudiosos imparciais no Ocidente. Com base nisso, a biblioteca da “Casa da Sabedoria” em Bagdá acrescentou um grande crédito à civilização humana e foi um elo importante na sua construção.

 

 

[1] Ver: al-Zirikly: al- A´ lam, 3 / 144.

[2] Al-Safady: al-Wafi bil Wafaiat, 5 / 86.

[3] Ver: al-Kutby: Fawat Al-Wafaiat, 1 / 122.

[4] Al-Qalqashandy: Subh al-`A sha, 1 / 537.

[5] Ibn al-Abar: al-Takmilah li Kitab-al-Silah, 1 / 226.

[6] Ver: Kadry Tuqan: Turath al-`Arab al-` Ilmy fi al-Riyadiyat wa-al Falak (A Herança Árabe Científica na Matemática e Astronomia), p. 250.

[7] Ibn al-Nadim: Al-Fihrist (A bibliografia), p. 333.

[8] Al-Battany: Abu Abdullah Muhammad ibn Jabir Ibn Sinan al-Harrany (falecido em 317 dH / 929 dC), um engenheiro astronômico, morreu em Samarra. Veja: al-Qafty: Ikhbar al-`Ulama ‘bi-Akhbar al-Hukama ” (A informação dos acadêmicos sobre as notícias dos sábios), p. 184, 185 e al-Safady: Idem, 2 / 209.

[9] Al-Idrisy, Abu Abdullah Muhammad ibn Muhammad ibn Abdullah ibn Idris (493-560 dH / 1100-1165 dC), é um cientista da geografia. Dirigiu-se para a Sicília e encontrou Rogério II, para quem escreveu um livro intitulado Nuzhat al- Mushtaq fi Ikhtiraq al-Afaq (A excursão de quem deseja atravessar os horizontes), 1 / 138: Veja: Al-Safady.

[10] Ragheb al-Sergany: Qissat al-Tatar min al-Bidayah ila `Ayn Jalut (A História dos tártaros do começo até `Ayn Jalut), p 161, 162.

 

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