Ramadã na história

Ramadã na história

 

Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos. Ele que revelou em Seu Glorioso Alcorão, “Ó crentes, está-vos prescrito o jejum como foi prescrito para aqueles que vos antecederam, para que temais a Deus.” (2:182) E que as bênçãos e a paz de Deus estejam com o Seu último Mensageiro, Mohammad ibn Abdullah, para sempre.

Ó vós que credes, o Ramadã é um mês sagrado, onde Deus Todo Poderoso está constantemente testando Sua criação e concedendo à humanidade a oportunidade de alcançar a Felicidade infinita e eterna. O jejum é uma purificação completa e um meio de desenvolver a consciência da presença de Deus. A consciência de Deus (taqwa) é uma proteção contra as armadilhas de Satanás e o sofrimento deste mundo. Deus nos informou que “Mas aquele que temer a Deus, Ele lhe mostrará uma saída e o agraciará de onde menos esperar. Quanto àquele que confiar em Deus, saiba que Ele é Suficiente. Certamente Deus cumpre o que promete. Deus indicou uma medida para cada coisa.” (65:2-3)

Hoje em dia, muitos muçulmanos têm um conceito errado a respeito do jejum e das atividades da pessoa que jejua. Entram num estado de semi-hibernação, passam a maior parte de seu dia mal. Se temem a Deus, acordam para rezar mas voltam para dormir imediatamente. Este sono não natural faz com que a pessoa fique preguiçosa, aborrecida e muitas vezes neurótica.

Na realidade, o Ramadã é um tempo de aumento das atividades, onde o crente, agora aliviado do peso da bebida e da comida, deve se sentir mais disposto a se esforçar e lutar por Deus. O Profeta (saw), após a Hégira, fez aproximadamente nove jejuns no Ramadã, e todos eles foram períodos de acontecimentos decisivos, deixando para nós um exemplo admirável de sacrifício e submissão a Deus.

No primeiro ano depois da Hégira, o Profeta (saw) enviou Hamza ibn Abdul Muttalib, juntamente com 30 cavaleiros muçulmanos, a Saif al Bahr, para espionar 3.000 cavaleiros  coraixitas que tinham acampado na região de forma suspeita. Os muçulmanos estavam quase pegando os descrentes, mas foram separados por Majdy ibn Umar al-Juhany. Os hipócritas de Medina, na esperança de se oporem à unidade dos muçulmanos, construíram sua própria mesquita (chamada Masjid ad-Dirar). O Profeta (saw) ordenou que essa mesquita fosse destruída no mês de Ramadã.

No décimo sétimo dia do mês de Ramadã, ano 3 da Hégira, Deus Todo Poderoso separou a verdade da falsidade na grande batalha de Badr. O Profeta (saw) e 313 de seus companheiros, partiram para interceptar uma caravana, chefiada por Abu Sufyan, com mercadorias que tinham sido deixadas em Meca, avaliada em 50.000 dinars. No caminho encontraram um exército bem equipado da nobreza coraixita, que queria apagar a luz do Islam. Apesar da grande diferença entre os dois grupos, na proporção de 3 coraixitas para 1 muçulmano, e parecendo fracos e inexperientes, os muçulmanos defenderam sua fé com um desejo ardente de proteger o Profeta e de encontrar seu Senhor pelo caminho do martírio. Deus lhes concedeu uma vitória decisiva neste dia de Ramadã que jamais foi esquecida.

No sexto ano da Hégira, Zaid ibn Haritha foi mandado ao chefe de um destacamento em Wadi al-Qura, para se defrontar com Fatimah bint Rabiah, a rainha daquela região. Fatimah tinha atacado anteriormente uma caravana chefiada por Zaid e tinha conseguido saquear seu carregamento. Ela era conhecida como a mulher mais bem protegida da Arábia, porque guardava 50 espadas de parentes próximos em sua casa. Fatimah também era conhecida por mostrar uma hostilidade declarada ao Islam. Ela foi morta numa batalha contra estes muçulmanos no mês de Ramadã.

No oitavo ano da Hégira, o tratado de Hudaibiyya foi rompido e os exércitos muçulmanos combateram os bizantinos no norte. Mohammad (saw) sentiu a necessidade de dar o golpe fatal à descrença na Península Arábica e conquistar a cidade de Meca. Deus tinha declarado Seu Santuário um lugar de paz, segurança e santidade religiosa. Agora, era chegado o tempo de purificar a Caaba da nudez e da abominação. O Profeta (saw) enviou um exército que tinha mais homens armados do que Medina jamais tinha visto antes. As pessoas iam se incorporando às fileiras do exército à medida que se dirigia a Meca. A determinação dos crentes, orientados pela Vontade de Deus, tornou-se tão incrível, que a cidade de Meca foi conquistada sem luta, no dia 20 do mês Ramadã. Esta  uma das datas mais importantes da história islâmica, porque a partir daí o Islam se enraizou firmemente na Península Arábica. Neste mesmo mês e ano, após a destruição dos ídolos de Meca, foram enviados destacamentos para outros centros importantes do politeísmo e al-Lat, Manat e Suwa, alguns dos maiores ídolos dos árabes pagãos, foram destruídos.

Assim era o mês de Ramadã na época do Profeta (saw). Foi uma época de purificação, de aconselhamento do bem, proibição do mal e de muito empenho. Após a morte do Profeta (saw), os muçulmanos continuaram esta tradição e Deus serviu-se dos verdadeiros crentes para influenciar o curso da história. O Ramadã continuou a ser um tempo de grandes provas e acontecimentos decisivos.

Após 99 anos da Hégira, o Islam tinha se espalhado pelo norte da África, Irã, Afeganistão, Iêmen e Síria. A Espanha era governada pelo tirano rei Roderic, dos visigodos. Seus seis milhões de servos e judeus perseguidos foram obrigados a procurar a ajuda dos muçulmanos do norte da África, para se libertarem de sua tirania. Musa ibn Husair, o governante omíada do norte da África, respondeu mandando seu valente general Tariq ibn Ziyad à frente de um exército de 12.000 soldados bérberes e árabes. No mês de Ramadã daquele ano, eles se defrontaram com o exército visigodo, composto de 90.000 cristãos, chefiados pelo próprio Roderic, que seguia à frente sentado em um trono de marfim, prata e pedras preciosas e puxado por mulas brancas. Após queimar seus barcos, Tariq pregou para os muçulmanos, advertindo-os que a vitória e o Paraíso estava na frente deles e que a derrota e o mar estava na retaguarda. Eles se inflamaram em grande entusiasmo e Deus proporcionou uma clara vitória sobre as forças da descrença. Roderic foi morto e seu exército completamente aniquilado. Tariq e Musa conseguiram libertar toda a Espanha, a Sicília e partes da França. Este foi o começo da Idade de Ouro de Al-Andalus, onde os muçulmanos governaram por mais de 700 anos.

No ano de 582 depois da Hégira, Salahuddin Al-Ayyubi, depois de lutar com os cruzados durante anos, finalmente expulsou-os da Síria e de todos os territórios ocupados, no mês de Ramadã. O mundo muçulmano, então, iria enfrentar um de seus mais terríveis desafios.

No século VII depois da Hégira, os mongóis cruzaram a Ásia, destruindo tudo o que se encontrava em seu caminho. Gêngis Khan se dizia “o flagelo de Deus enviado para punir a humanidade por seus pecados”. No ano de 617, Samarkan, Ray e Hamdan foram arrazadas, resultando em mais de 700.000 pessoas mortas ou tornadas cativas. Em 656 depois da Hégira, Hulagu, o neto de Gêngis Khan, continuou sua destruição. Até Bagdá, a mais notável cidade do mundo muçulmano, foi saqueada. Segundo algumas estimativas, mais de 1.800.000 muçulmanos foram mortos nesta terrível carnificina. Os cristãos foram obrigados a comer porco e beber vinho publicamente, enquanto que os muçulmanos sobreviventes eram forçados a participar dessas orgias. Vinho foi espalhado nas mesquitas e foi proibido o Azan (chamamento para a oração). Na esteira de tão horrível desastre, e com a ameaça a todo o mundo muçulmano e a Europa sendo submetida ao mesmo terrível destino, Deus fez surgir dentre os mamelucos do Egito, Saifuddin Qutz, que unificou o exército muçulmano e enfrentou os mongóis em Ain Jalut, no dia 25 do Ramadã, do ano 458 da Hégira. Embora estivessem sob grande pressão, os muçulmanos, com a ajuda de Deus, com astúcia e coragem, esmagaram o exército mongol e reverteram esta maré de horror. Todo o mundo civilizado respirou aliviado e rendeu admiração à notável conquista destes nobres filhos do Islam.

Assim era o espírito do Ramadã, que possibilitou nossos antepassados justos enfrentarem desafios aparentemente impossíveis. Foi um tempo de intensa atividade, passando o dia na sela e a noite em oração, pedindo a Deus por Sua misericórdia e perdão.

Hoje, o mundo muçulmano é desafiado pela seca, agressão militar, corrupção disseminada e materialismo tentador. Certamente, precisamos de crentes que possam seguir os passos de nosso amado Profeta (saw), os ilustres (companheiros), de Tariq ibn Ziyad, Qutuz, Salahuddin e dos inúmeros heróis do Islam. Certamente precisamos de crentes que não receiem as ameaças dos descrentes e que sejam amáveis e humildes com aqueles que crêem; muçulmanos cujo jejum é completo e não apenas uma fonte de fome e sede.

Que Deus crie uma geração de muçulmanos que possa levar o Islam a todos os cantos do globo de uma forma que seja própria a nossa época e que Ele nos dê força e êxito para construir as fundações adequadas para esta geração. Que Deus nos transforme naqueles que seguem o Islam durante o Ramadã e depois dele, e que Ele não nos transforme naqueles que dizem o que não fazem. Que a paz de Deus esteja com nosso Profeta Mohammad. Ó crentes, peçam bênçãos e paz para ele para sempre.

Dr. Abdullah Hakim Quick

Fonte: sbmrj.org.br

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