A Influência da Civilização Islâmica Sobre a Europa no Campo da Crença e da Legislação

Dr Ragheb Elsergany

Tradução: Sh Ahmad Mazloum

 

Introdução

Chama a atenção na seqüência das civilizações que a posterior se baseia na anterior e constroi sobre ela, e que não há civilização que começa a partir do zero.

Portanto, a civilização islâmica teve grande influência sobre a moderna civilização européia, que a sucedeu. O impacto da civilização islâmica na Europa abrangeu muitos campos e dominou vários aspectos, a ponto de se espalhar em todas as áreas da vida européia. Este impacto atingiu a maioria das atividades e sistemas, principalmente a fé, os aspectos ciêntíficos, línguísticos, literários, legislativos, sociais, políticos, entre outros.

 

A Influência na matéria da crença

O Islam veio com a fé do monoteísmo no meio de uma sociedade e um mundo em que predominavam o politeísmo e a idolatria. O Islam ensina o homem a unificar a Deus com o monoteísmo e a elevá-Lo de qualquer característica física ou deficiência. O Islam libertou o homem de adorar a alguém, além de Deus (exaltado seja), e não estabeleceu qualquer mediador ou sacerdote para atuar entre o homem e Deus… e assim que o mundo, especialmente durante a era do renascimento europeu, conheceu esta fé pura “os seguidores de cada religião começaram a apresentar uma explicação para o politeísmo, ou aspectos do politeísmo e da idolatria, seus costumes e tradições, que existiam em seu sistema religioso. Para isso, eles contorciam a língua e se empenhavam em expressar e explicar de uma forma muito próxima e semelhante ao monoteísmo islâmico.”[1]

Ahmad Amin diz: Surgiram tendências entre os cristãos que mostram o impacto do Islam. Por exemplo, no século VIII gregoriano / século II e III islâmico, surgiu um movimento em Septimania[2], pedindo o indeferimento da realização de confissão diante de um padre na base de que um padre não tem direito a isso. O movimento disse que o homem deve apenas suplicar a Deus para que perdoe os pecados que cometeu. E o Islam não tem padres, sacerdotes ou bispos. É, portanto, normal que o Islam não tenha a confissão.

Influenciado pelo Islam, outro movimento também apareceu pregando a destruição das imagens e estátuas religiosas. Nos séculos VIII e IX gregoriano, surgiu uma doutrina cristã que rejeita a glorificação de imagens e estátuas. O imperador romano (Leo III) emitiu uma ordem em (108 dH/730 dC) proibindo a glorificação de imagens e estátuas e uma outra ordem em (112 dH/730 dC) considerando isso um ato de idolatria, e assim fez Constantino V e Leo IV. Houve também uma seita cristã que explica a fé da Trindade de uma forma que foi semelhante ao monoteísmo e nega a divindade de Cristo[3].

Quem lê sobre a história religiosa da Europa e a história da igreja cristã pode sentir o impacto racional do Islam sobre as tendêcias dos reformistas e dos que se revoltaram contra o sistema episcopal dominante. O movimento reformista de Lutero foi, apesar de seus defeitos, a manifestação mais marcante da influência do Islam e algumas de suas crenças, como foi admitido pelos historiadores[4].

Portanto, a crença islâmica – com sua clareza e pureza – foi de um impacto muito grande nas crenças de muitos não-muçulmanos, e levou à correção de uma série de conceitos que se desvirtuaram com o passar do tempo, em todo o mundo.

 

A influência na matéria da legislação

Quanto à influência sobre a civilização européia em matéria de direito e legislação, o contato dos estudantes ocidentais com as escolas islâmicas na Andaluzia e outros locais desempenhou um grande papel na transferência de um conjunto de leis legislativas islâmicas (fiqh e tashri’i) para todos os seus idiomas. Naquela época, a Europa não adotava um sistema primoroso nem leis justas. Durante a época de Napoleão no Egito, os livros mais famosos da escola de jurisprudência (fiqh) Maliki foram traduzidos para o francês. O primeiro deles foi “o livro de Al Khalil”, que foi o núcleo do direito civil francês, que foi muito semelhante às decisões da escola Maliki de fiqh[5].

O estudioso proeminente Sedillot[6] diz: “A escola Maliki, em particular, é o que atrai a nossa atenção, devido aos contatos que temos com os árabes da África. O governo francês pediu ao Dr. Peyron para traduzir para o francês o livro “Al-Mukhtasar fi al-fiqh” (O compêndio em fiqh) de autoria de Al-Khalil ibn Ishaq ibn Ya’qub, que morreu em (776 dH/1374 dC).[7]

A civilização Islâmica participou das leis da própria Europa. Escrevendo sobre isso em seu livro “A Estrutura da História”, o historiador britânico Wells[8] diz: “A Europa está em dívida para com o Islam por causa da maior parte de suas leis administrativas e comerciais”[9]

 

[1] Abul-Hassan al-Nadwi: Maza khassira Al-Alam bi inhitat al-Muslimin (O que o mundo perdeu com a degradação dos muçulmanos?) P 105. Septimania é uma antiga província francesa no sudoeste da França com vista para o Mediterrâneo.

[2] Septimania é uma antiga província francesa no sudoeste da França com vista para o Mediterrâneo.

[3] Veja: Ahmad Amin: Dhuha Al-Islam (Manhã do Islam), 1/381-382.

[4] Veja: Abu Al-Hassan al-Nadwi: O que o mundo perdeu com a degradação dos muçulmanos? p 106.

[5] Mustafa al-Siba’i: Min. raw’i hadaratna (Das maravilhas de nossa civilização) p 44.

[6] Sedillot: (1223-1292 AH/1808-1875) um orientalista francês, nasceu e morreu em Paris. Uma das obras árabes de Sedillot é a sua publicação do livro “Jamie al-mabadi wa al-ghayat fi al-alaat al-falakiyah” (o conjunto de princípios e objetivos de dispositivos astronômicos) por Ali Al-Marrakeshi, com tradução para o idioma francês.

[7] Sedillot: História Geral dos árabes, com tradução de Almeida Ze’atar p 395.

[8] Wells: Herbert George Wells (1866-1946 dC), um homem britânico de letras, pensador, jornalista, sociólogo e historiador, considerado um dos fundadores da literatura de ficção científica.

[9] Citando Muhammad Uthman Uthman: Muhammad fi al-Adab al-alamiyah al-munsifah (Muhammad na literatura internacional imparcial) p 76.